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segunda-feira, 22 de março de 2010

Perfeição - Legião Urbana

Vamos celebrar
A estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja
De assassinos
Covardes, estupradores
E ladrões...

Vamos celebrar
A estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação...

Celebrar a juventude sem escolas
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião...

Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade...

Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta
De hospitais...

Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras
E seqüestros...

Nosso castelo
De cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia
E toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã...

Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar o coração...

Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado
De absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos
O hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
Comemorar a nossa solidão...

Vamos festejar a inveja
A intolerância
A incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente
A vida inteira
E agora não tem mais
Direito a nada...

Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta
De bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isto
Com festa, velório e caixão
Tá tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou
Essa canção...

Venha!
Meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha!
O amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha!
Que o que vem é Perfeição!...

domingo, 22 de novembro de 2009

CONFLUÊNCIA PASSIONAL

Imaginem rios que se querem
e se esperem presos pelo cheiros
e arrastem tortos pelo mundo
afagando o leito em desespero...
Imaginem rios que se gostem
e se encostem longos de desejo
e se encontrem prontos de ternura
se misturem cada vez mais beijo
e se deixem em êxtase de espuma
troquem águas, algas, mágoas, peixes...

Altair de Oliveira – In: O Embebedário Diverso

sábado, 7 de novembro de 2009

Isso me cai bem II

Sinto o abraço do tempo apertar
e redesenhar minha escolhas
logo eu, que queria mudar tudo
me vejo cumprindo ciclos
gostar mais de hoje e gostar disso
Me vejo com seus olhos, tempo
espero pelas novas folhas
e imagino jeitos novos
para as mesmas coisas
logo eu, que queria ficar
pra ver encorparem os caules
lá vou eu, eu queria ficar
pra me ver mais tarde
sabendo o que sabem os velhos
pra ver o tempo e seu lento ácido
dissolver o que é concreto
E vejo o tempo em seu claroescuro
vejo o tempo em seu movimento
me marcar a pele fundo
me impelindo, me fazendo
logo eu, que fazia girar o mundo
logo eu, quem diria, esperar pelos frutos
Conheço o tempo em seus disfarces
em seus círculos de horas
se arrastando feito meses
se o meu amor demora
E vejo bem, tudo recomeçar todas as vezes
e vejo o tempo apodrecer e brotar e seguir sendo sempre ele
Me vejo o tempo todo
começar de novo
e ser e ter tudo pela frente
Me vejo o tempo todo
começar de novo
e ser e ter tudo pela frente

Abril - Adriana Calcanhoto

Isso me cai bem

"Perceber aquilo que se tem de bom no viver é um dom
Daqui não,
eu vivo a vida na ilusão
Entre o chão e os ares vou sonhando em outros ares, vou
Fingindo ser o que eu já sou "

Liberdade - Los Hermanos

domingo, 31 de maio de 2009

Quero voltar a cantar...

Minh'a alma louca há de sair cantando
Naquela nuvem que lá está parada
E mais parece um lindo barco a vela!...

Mario Quintana -Trecho do poema Rua dos Cataventos - xv -

A Rua dos Cataventos

I
Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!...E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!
Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons...acerta...desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...
Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar?Também sou da paisagem...
Vago,solúvel no ar,fico sonhando...
E me transmuto...iriso-me...estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando!
Mario Quintana

sábado, 11 de abril de 2009

Por estas noites frias e brumosas
É que melhor se pode amar, querida!
Nem uma estrela pálida, perdida
Entre a névoa, abre as pálpebras medrosas...

Mas um perfume cálido de rosas
Corre a face da terra adormecida...
E a névoa cresce, e, em grupos repartida,
Enche os ares de sombras vaporosas:

Sombras errantes, corpos nus, ardentes
Carnes lascivas... um rumor vibrante
De atritos longos e de beijos quentes...

E os céus se estendem, palpitando, cheios
Da tépida brancura fulgurante
de um turbilhão de braços e de seios.
Via Láctea - Olavo Bilac

sábado, 21 de março de 2009

Outono!

Agora virão as noites de sopa de cebola douradinha e das extremidades dos pés frios.Ah! e também vou poder exercitar a minha gulodisse por chocolates.A estação do ano que mais amo chegou...O outono com suas folhas amareladas, avermelhadas, aquele ventinho doce entrando pela janela do quarto e balançando a cortina de renda...Já repararam no pôr-do-sol outonal? É lindo demais!

Festejemos o outono com esse singelo haicai (poema)de Eunice Arruda:

Nesta manhã
um vento - leve - anuncia
o início do outono

Depois das chuvas
a goiaba mostra as sementes
rachada no chão

Fardo nos ombros
o lavrador caminha leve
Farta colheita

Manhã de abril
O vento tenta enxugar
as roupas no varal

No azul do céu
nuvens se rasgam ao meio -
lua boiando

Noite estrelada
O céu - brilhando - se abaixa
silenciosamente

Porta entreaberta
Filhos - alegres - saindo
Frio leve chegando

Em tempo:
O haicai é um flash, um recorte, uma espécie de registro fotográfico do cotidiano transformado em texto poético.

sábado, 14 de março de 2009

Ah....Cartola!

Tá uma chuvinha gostosa lá fora e um cheiro de terra molhada maravilhoso. O verão está terminando e me lembrei dessa linda música do Cartola...Aí vai a criação e a obra...

" O parceiro Nuno Veloso havia comprado uma roseira para enfeitar a nova casa de Zica e Cartola em Mangueira.
Um belo dia, Zica abriu as janelas e levou um susto: aquele mundaréu de rosas havia desabrochado. Depressa chamou o marido: _ Cartola, vem ver! Por que será que nasceu tanta rosa? Num rompante de puro lirismo, ele respondeu: _Não sei Zica. As rosas não falam...Gostou da frase. Deixou que ela martelasse um pouco na cabeça, até que não se conteve mais e compôs de uma levada só a sublime canção:


Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão, enfim
Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar
Para mim
Queixo-me às rosas
Mas que bobagem, as rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti,ai
Devias vir
Para ver os meus olhos tristonhos
E quem sabe sonhavas meus sonhos
Por fim."

"Cartola não existiu,
foi um sonho que a gente teve."
Nelson Sargento.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Vou tentar começar...

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
_ que é uma questão
de vida ou morte_
será arte?

Ferreira Gullar